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Analcima e Natrolite do maciço alcalino de Monchique Na região do Algarve o conjunto montanhoso, que o separa do Alentejo, inicia-se a ocidente, a norte do Cabo de S. Vicente, com a Serra do Espinhaço de Cão, de pequena altitude, prolongando-se pela de Monchique (Munt Sàquir –montanha sagrada para os muçulmanos), a mais elevada, seguindo-se a Serra do Caldeirão que se estende até ao rio Guadiana. São relevos, formados por xistos e grauvaques de idade Paleozóica, com afloramentos eruptivos de sienito na Serra de Monchique. O maciço alcalino de Monchique é um dos mais importantes da Europa e um dos maiores que se conhecem de composição miasquítica em contraste com a maioria dos grandes complexos alcalinos de natureza essencialmente agpaítica, como por exemplo Lovozero, Langesundfjord, Ilimaussaq e Mont Saint-Hilaire. O maciço alcalino de Monchique de idade cretácica é de natureza intrusiva e estará relacionado com a abertura do Atlântico Norte, particularmente com a abertura do Golfo da Biscaia, conjuntamente com os maciços de Sintra e Sines. Terrinha e Kullberg (1998) propuseram um modelo especulativo para a instalação dos maciços ígneos de Sintra, Sines e Monchique em que consideravam a existência de um deslocamento litosférico que separou dois segmentos litosféricos frágeis, esse deslocamento seria uma falha NNW-SSE, localizada na litosfera inferior, ao longo desta falha ter-se-ia dado a ascensão magmática e em falhas, aproximadamente E-W, situadas na litosfera superior, ter-se-iam instalado os três complexos ígneos. O maciço de Monchique que foi datado com a idade de 72 ± 2 M.A (Rock, 1983), método K-Ar, faz parte da Província Ígnea Alcalina da Península Ibérica e apresenta uma estrutura zonada, tal como em Sines e Sintra, tendo o contacto com a rocha encaixante paleozóica atitude subvertical. Segundo González-Clavijo & Valadares (2003) o alongamento do maciço e a presença de um sistema de falhas (ENE-WSW), que poderiam resultar da reactivação de estruturas antigas, apoiam a hipótese da existência de um controlo estrutural da intrusão. Este processo ter-se-ia iniciado com a intrusão de grandes diques de rochas básicas, segundo as falhas ENE-WSW, seguido-se a instalação de vários corpos intrusivos, de geometria ovóide e composição sienítica. Nas zonas de interacção entre as rochas básicas e as primeiras intrusões sieníticas, formaram-se brechas de vários tipos. A debilidade estrutural gerada pelas primeiras intrusões teria facilitado a ascensão do corpo de sienito nefelínico, de grandes dimensões, que ocupa a posição central. O maciço sienítico, aflora numa área com cerca de 80 Km2, com forma aproximadamente elíptica. Mais de 90% do afloramento consiste em sienitos nefelínicos (muitos do tipo foiaíto), veios de aplito-pegmatitos nefelínicos, diques e filões de composição essencialmente sienitica, filões de lamprófiros (entre os quais monchiquitos) e fonólitos. O restante corresponde fundamentalmente a gabros com feldspatóides e brechas ígneas. A intrusão do maciço gerou uma auréola de metamorfismo de contacto, com corneanas, que apresenta uma espessura mais ou menos constante de 200 m, exceptuando na área NW onde a espessura é superior a 1 Km (Gonzáles-Calvijo & Valadares, 2003), veios de aplitos feldspatóidicos, filões de lamprófiros (entre os quais monchiquitos) e fonólitos. A datação por Rb-Sr dos sienitos nefelínicos (72.3 ± 4.2 Ma) e das unidades máficas (71.5 ± 3.6 Ma) revelou idades próximas, e concordantes, com a datação de Rock indicando que as várias unidades terão tido origem no mesmo magma parental, que segundo os últimos dados geoquímicos será de origem mantélica com pouca contaminação crustal. Com base no estudo de Gonzáles-Calvijo & Valadares (2003) o maciço alcalino de Monchique apresenta uma estrutura zonada central. A principal diferenciação faz-se entre dois tipos de sienitos nefelinicos: um nuclear, que apresenta uma fácies grosseira e uma unidade anelar exterior de sienito heterogéneo na textura e granularidade (Foto 1). O sienito nuclear, que ocupa uma superfície que passa os 50% da área aflorante do maciço, apresenta-se bastante homogéneo, na textura e granulometria, e apresenta um conteúdo de nefelina superior a 25% (em boa parte da variedade eleolite). A unidade exterior, que ocupa cerca de 40% do maciço, apresenta um teor menor de nefelina, geralmente inferior a 10%, uma granulometria variável, de muito fino a grosseiro, e uma fracturação superior à da unidade central. Outros autores como, por exemplo, Czigen (1969) e Gonçalves (1967) consideraram o maciço como sendo constituído por apenas um corpo de sienito nefelínico ocasionado por uma única pulsação magmática. Segundo Czigen (1969) as diferentes variedades de sienito que aparecem na área marginal resultariam da contaminação por assimilação de rochas encaixantes.
Foto 1- Amostras de sienitos da unidade central (A) e da unidade periférica (B). Note-se a diferença no teor de nefelina e na granulometria. O exemplar A (7x6 cm) foi recolhido na pedreira de Nave e corresponderá provavelmente a um foiaíto e o exemplar B (9x7 cm) foi recolhido no alto da Foia onde, por curiosidade, refira-se que não existe foiaíto. Foto e exemplares de Ricardo Pimentel.
A Mineralogia do Maciço Alcalino de Monchique Fazendo uma simbiose entre os artigos de Rock (1983) e Gonzáles-Calvijo & Valadares (2003) a mineralogia das rochas sieníticas inclui, como minerais principais, feldspato alcalino (ortóclase e microclina), nefelina, piroxenas (aegirina e augite) e micas. Os minerais acessórios incluem analcima, apatite, calcite, cancrinite, esfena, fluorite, lavenite, natrolite, pirite, pirocloro, rosenbuschite, rútilo, sodalite, turmalina, wölerite e zircão. As amostras bem cristalizadas são relativamente raras dado que o sienito, e restantes rochas do maciço, se apresentam bastante compactas e relativamente pobres em cavidades. No entanto as cavidades miaroliticas (Foto 2) e alguns veios pegmatíticos permitiram obter cristais, geralmente milimétricos ou sub-milimétricos, de analcima, natrolite, fluorite, aegirina, lepidolmelana, ancylite-Ce, calcopirite, magnetite, pirite, pirrotite, galena, sodalite e zircão. Inclusos no monchiquito encontraram-se cristais de sanidina. De todo estes o mais notáveis são os que se referem aos minerais do grupo dos zeólitos já que alcançam dimensões bastante superiores aos outros cristais. Foto 2- Cavidade miarolitica, em sienito da unidade central. A cavidade, com cerca de 30 cm, estava atapetada com cristais de natrolite. Foto de Ricardo Pimentel em Setembro de 2004. Galeria fotográfica de zeólitos do maciço de Monchique. As fotografias são da autoria de Volker Betz em exemplares fornecidos por mim. BibliografiaCOSTA, L. R. ; CRUZ, J. A. (2000). Geotermia de Baixa Entalpia em Portugal. Situação Presente e Perspectivas de Evolução. Boletim de Minas, Vol. 37 - nº 2. Instituto Geológico e Mineiro. Versão Online no site do IGM (http://www.igm.pt/edicoes_online/boletim/vol37_2/artigo1.htm). GONÇALVES, F. (1967). Subsídios para o Conhecimento Geológico do Maciço Eruptivo de Monchique. Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal - Tomo LII, 16 pp GONZÁLES-CLAVIJO, E. J., VALADARES, V. (2003). O Maciço Alcalino de Monchique (SW português): Estrutura e Modelo de Instalação na Crosta Superior. Comunicações do Instituto Geológico e Mineiro, Tomo 90, pp. 43-64. GAULT R.A e HORVATH L. (1990) The Mineralogy of Mont Saint-Hilaire, Québec, Mineralogical Record, Vol. 21, No. 4, pp. 283-368 MENEZES, L. A. D. et al (1984), The Jacupiranga mine, São Paulo, Brazil, Mineralogical Record, Vol 15, nº 5, pp. 261-270 RIEDER M. e t al (1998) Nomenclature of the Micas, The Canadian Mineralogist, Vol. 36, pp. X-XX ROCK, N. M. S. (1983). Alguns Aspectos Geológicos, Petrológicos e Geoquímicos do Complexo Eruptivo de Monchique. Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal, Tomo 69, Fasc. 2, pp.325-372 TERRINHA P. A. G., KULLBERG M. C. (1998). An Emplacement Model for the Late Cretaceous Igneous Massifs of Sintra, Sines and Monchique. Comunicações do Instituto Geológico e Mineiro - Tomo 84 - 1º Volume, pp.D53-D56. TSCHERNICH R.W.
(1992). Zeolites of the World, Geoscience Press, Phoenix, 563 pp Copyright © 2002 [Ricardo Pimentel].
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